O índice de massa corporal (IMC) é uma medida antropométrica amplamente utilizada para estimar a quantidade de gordura corporal com base na relação entre o e a de um indivíduo, expressa na unidade kg/m² [1]. Desenvolvido originalmente pelo matemático belga Adolphe Quetelet no século XIX como o "índice de Quetelet", o IMC ganhou destaque na medicina moderna após pesquisas de Ancel Keys nas décadas de 1970 e 1980, sendo posteriormente adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como padrão global para classificar o excesso de peso e a [2]. As categorias convencionais definem: abaixo do peso (IMC <18,5), peso normal (18,5–24,9), sobrepeso (25,0–29,9) e obesidade (≥30,0), embora esses limiares tenham sido criticados por não considerar variações étnicas, como os cortes mais baixos recomendados para populações asiáticas [3]. Apesar de sua simplicidade e utilidade em vigilância epidemiológica, o IMC não distingue entre massa gorda e massa magra, levando a possíveis erros de classificação em atletas com alta ou em idosos com obesidade de peso normal, e falha em avaliar a distribuição da gordura, especialmente a , um fator de risco metabólico crucial [4]. Por isso, especialistas recomendam complementar o IMC com medidas como a , a ou exames de composição corporal como a DEXA, além de biomarcadores metabólicos como e perfil lipídico [5]. O uso generalizado do IMC também tem sido criticado por promover , influenciado por normas culturais ocidentais que associam magreza a saúde e moralidade, impactando desproporcionalmente mulheres e populações racializadas [6]. Em resposta, movimentos como o "Health at Every Size" e novas abordagens baseadas em fenótipos metabólicos buscam oferecer avaliações mais justas e precisas da saúde corporal.

Definição e cálculo do IMC

O índice de massa corporal (IMC) é uma medida antropométrica utilizada para estimar a quantidade de com base na relação entre o e a de um indivíduo [1]. Embora não meça diretamente a gordura corporal, o IMC apresenta uma forte correlação com métodos mais precisos, como a DEXA, a impedância bioelétrica e a espessura de dobras cutâneas [8]. Sua principal utilidade reside no rastreamento populacional, servindo como uma ferramenta de triagem para identificar categorias de peso que podem estar associadas a riscos para a saúde, como , e certos tipos de [9].

Fórmula e unidades do IMC

O cálculo do IMC é baseado em uma fórmula matemática simples que divide o peso pela altura ao quadrado. A unidade resultante é quilogramas por metro quadrado (kg/m²) [1]. A fórmula varia conforme o sistema de unidades utilizado.

Sistema métrico

Para peso em quilogramas (kg) e altura em metros (m), a fórmula é:
IMC = peso (kg) ÷ [altura (m)]²
[8]

Por exemplo, uma pessoa com 70 kg e 1,75 m de altura tem um IMC de:
70 ÷ (1,75)² = 70 ÷ 3,0625 = 22,86 kg/m².

Sistema imperial

Para peso em libras (lb) e altura em polegadas (in), a fórmula inclui um fator de conversão:
IMC = [peso (lb) ÷ (altura (in))²] × 703
[8]

Por exemplo, uma pessoa com 154 libras e 68 polegadas de altura tem um IMC de:
(154 ÷ 68²) × 703 = (154 ÷ 4624) × 703 ≈ 23,3 kg/m².

Base matemática e hipóteses fisiológicas

A escolha de dividir o peso pela altura ao quadrado, em vez do cubo (como seria esperado para um volume), tem uma justificativa empírica e geométrica. O matemático Adolphe Quetelet observou no século XIX que o peso humano adulto tende a escalar aproximadamente com o quadrado da estatura, não com o cubo [13]. Isso ocorre porque o corpo humano não cresce de forma isométrica — indivíduos mais altos são relativamente mais esguios do que os mais baixos, o que faz com que sua massa não aumente na mesma proporção que o volume [14]. Assim, o IMC serve como uma aproximação estatística que normaliza a massa corporal em diferentes estaturas, permitindo comparações entre indivíduos de alturas variadas [15].

Ferramentas de cálculo e acessibilidade

Devido à sua simplicidade, o IMC pode ser facilmente calculado manualmente ou com o auxílio de calculadoras online. O Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos oferece uma calculadora de IMC para adultos que facilita a determinação da categoria de peso [16]. Essa acessibilidade é uma das principais razões para seu uso generalizado em e em ambientes clínicos, especialmente em contextos com recursos limitados [17]. A facilidade de medição do peso e da altura, sem necessidade de equipamentos especializados, torna o IMC uma métrica altamente escalável para vigilância epidemiológica em larga escala [1].

Categorias padrão e interpretação clínica

O índice de massa corporal (IMC) é amplamente utilizado na prática clínica e na vigilância epidemiológica como uma ferramenta de triagem para classificar o estado nutricional de adultos com base em categorias padronizadas. Essas categorias, estabelecidas por organizações internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centers for Disease Control and Prevention (CDC), fornecem um quadro comum para a avaliação do risco associado ao excesso ou déficit de peso. No entanto, a interpretação clínica do IMC exige cautela, pois sua aplicação como indicador isolado de saúde pode levar a classificações inadequadas, especialmente em populações com variações étnicas, de idade ou de composição corporal [1].

Categorias convencionais para adultos

As categorias padrão do IMC para adultos são baseadas em valores numéricos fixos, independentemente da idade ou sexo. Essas classificações são amplamente aceitas e utilizadas globalmente, servindo como referência em diretrizes clínicas e políticas de saúde pública:

  • Abaixo do peso: IMC inferior a 18,5 kg/m²
  • Peso normal (ou saudável): IMC entre 18,5 e 24,9 kg/m²
  • Sobrepeso: IMC entre 25,0 e 29,9 kg/m²
  • Obesidade: IMC igual ou superior a 30,0 kg/m² [9]

A obesidade é ainda subdividida em classes para refletir níveis crescentes de risco à saúde:

  • Obesidade Classe I: IMC de 30,0 a 34,9 kg/m²
  • Obesidade Classe II: IMC de 35,0 a 39,9 kg/m²
  • Obesidade Classe III (também denominada obesidade grave, extrema ou mórbida): IMC igual ou superior a 40,0 kg/m² [21]

Essas categorias são amplamente utilizadas para identificar indivíduos em maior risco de desenvolver doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer [1]. Apesar disso, o IMC é considerado uma ferramenta de triagem, e não um diagnóstico clínico, exigindo avaliações complementares para determinar o risco real de saúde.

Variações étnicas e ajustes nos pontos de corte

Embora as categorias do IMC sejam aplicadas globalmente, evidências mostram que os pontos de corte convencionais podem não refletir com precisão o risco metabólico em todas as populações. Grupos étnicos como os de origem asiática, sul-asiática, africana ou árabe frequentemente apresentam maior risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares em níveis de IMC considerados "normais" pela classificação padrão [23]. Por exemplo, estudos indicam que populações sul-asiáticas podem ter risco equivalente ao de populações brancas em IMCs tão baixos quanto 23,9 kg/m², levando a recomendações de pontos de corte mais baixos para intervenções clínicas [24].

Em resposta, organizações como a National Institute for Health and Care Excellence (NICE) do Reino Unido e a American Diabetes Association adotaram pontos de corte étnico-específicos. Para populações asiáticas, por exemplo, o sobrepeso é definido a partir de 23 kg/m² e a obesidade a partir de 27,5 kg/m², visando melhorar a detecção precoce de riscos metabólicos [3]. Esses ajustes reconhecem as diferenças na distribuição de gordura corporal, com populações não brancas frequentemente apresentando maior gordura visceral e maior resistência à insulina em IMCs mais baixos [4].

Interpretação clínica e risco metabólico

A associação entre o IMC e o risco de morbidade e mortalidade é bem estabelecida em estudos epidemiológicos. A relação entre o IMC e a mortalidade por todas as causas é descrita como em forma de J ou U, com o menor risco observado na faixa de 22–25 kg/m² [27]. Ambos os extremos — abaixo do peso e obesidade — estão associados a riscos aumentados, especialmente para doenças cardiovasculares, diabetes e certos cânceres [28].

No entanto, essa relação varia conforme a idade, sexo e condição socioeconômica. Em adultos mais velhos (65 anos ou mais), o risco associado ao sobrepeso pode ser atenuado, fenômeno conhecido como "paradoxo da obesidade", possivelmente devido a reservas energéticas protetoras durante doenças crônicas [29]. Além disso, mulheres podem ter um ponto de inflexão ligeiramente mais alto (23–26 kg/m²) para o menor risco de mortalidade em comparação com homens (22,5–25 kg/m²) [30].

Apesar dessas correlações, o IMC não distingue entre massa gorda e massa magra, levando a erros de classificação. Atletas com alta massa muscular podem ser classificados como sobrepeso ou obesos, mesmo com baixa gordura corporal e boa saúde metabólica [31]. Por outro lado, indivíduos com IMC normal, mas alta gordura corporal — conhecidos como "obesidade de peso normal" ou "metabolicamente obeso com peso normal" — podem ter risco metabólico elevado, especialmente se apresentarem circunferência da cintura aumentada [32].

Recomendações clínicas e uso complementar de medidas

Devido às limitações do IMC, diretrizes clínicas recomendam que ele seja usado em conjunto com outras medidas para uma avaliação mais precisa do risco à saúde. A circunferência da cintura é amplamente reconhecida como um indicador vital de adiposidade central e risco metabólico. Valores acima de 94 cm em homens e 80 cm em mulheres (com pontos de corte ainda mais baixos para populações asiáticas) indicam risco aumentado, mesmo com IMC normal [33]. A razão cintura-estatura, especialmente com um limiar de 0,5, tem demonstrado ser um preditor mais forte do que o IMC para síndrome metabólica e mortalidade cardiovascular [34].

Em contextos clínicos especializados, métodos avançados como a DEXA, a bioimpedância elétrica (BIA) e a ressonância magnética (MRI) permitem quantificar com precisão a gordura corporal total e visceral, superando as limitações do IMC [35]. Além disso, marcadores metabólicos como HbA1c, perfil lipídico e pressão arterial fornecem uma avaliação funcional da saúde que não pode ser inferida apenas pelo peso e altura [36].

A American Medical Association (AMA) reconhece que o uso isolado do IMC é uma medida clínica imperfeita e recomenda uma abordagem mais abrangente, que considere fatores sociais, determinantes estruturais da saúde e variações étnicas [37]. Essa evolução reflete uma mudança rumo a modelos de saúde mais justos, precisos e personalizados, que vão além da simplificação numérica do IMC.

Limitações do IMC na avaliação da saúde individual

O índice de massa corporal (IMC) é amplamente utilizado como uma ferramenta de triagem para avaliar o risco associado ao peso, mas apresenta limitações significativas quando aplicado à avaliação da saúde individual. Embora útil em contextos populacionais, o IMC não é um indicador preciso da composição corporal ou do risco metabólico em nível individual, podendo levar a erros de classificação e interpretações equivocadas sobre a saúde de uma pessoa.

Incapacidade de distinguir entre massa gorda e massa magra

Uma das principais limitações do IMC é que ele não diferencia entre massa gorda, massa muscular e densidade óssea. Como o cálculo do IMC se baseia apenas no peso e na altura, indivíduos com alta , como atletas ou praticantes de musculação, frequentemente são classificados como sobrepeso ou obesos, apesar de possuírem baixo percentual de gordura e excelente saúde metabólica [4]. Esse fenômeno pode resultar em uma superestimação do risco de doenças cardiovasculares ou metabólicas nesses indivíduos. Por outro lado, pessoas com baixa massa muscular e alta gordura corporal podem apresentar um IMC dentro da faixa considerada "normal", ocultando riscos reais para a saúde [31].

Falta de avaliação da distribuição da gordura corporal

O IMC não fornece informações sobre a localização da gordura no corpo, o que é um fator crítico para o risco metabólico. A gordura visceral — aquela que se acumula ao redor dos órgãos internos na região abdominal — está fortemente associada a condições como resistência à insulina, diabetes tipo 2, dislipidemia e doenças cardiovasculares [40]. Em contraste, a gordura subcutânea apresenta menor risco metabólico. No entanto, o IMC não distingue entre esses tipos de gordura, levando à subestimação do risco em indivíduos com obesidade abdominal, mesmo que seu IMC seja normal. Estudos demonstram que a é um preditor mais preciso de síndrome metabólica e eventos cardiovasculares do que o IMC isolado [41].

Variações étnicas, raciais e demográficas na interpretação do IMC

Os limiares convencionais do IMC foram desenvolvidos predominantemente com base em dados de populações brancas de meia-idade, o que compromete sua validade em grupos étnicos e raciais diversos. Por exemplo, populações asiáticas, sul-asiáticas e de origem árabe tendem a apresentar maior percentual de gordura corporal e risco elevado de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares em valores de IMC considerados "normais" segundo os padrões globais [23]. Em resposta, organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) do Reino Unido recomendam limiares mais baixos para o sobrepeso (≥23 kg/m²) e obesidade (≥27,5 kg/m²) nesses grupos [3]. Por outro lado, indivíduos negros frequentemente apresentam maior massa magra e densidade óssea, o que pode levar à superestimação do risco quando se utiliza o IMC padrão [44].

Inadequação em diferentes faixas etárias e sexos

O IMC também falha em considerar as mudanças naturais na composição corporal ao longo da vida. Com o envelhecimento, ocorre perda de massa muscular (sarcopenia) e aumento da gordura corporal, especialmente a visceral, mesmo sem alterações no peso total. Isso pode resultar em "obesidade de peso normal", uma condição em que o IMC está dentro da faixa normal, mas o risco metabólico é elevado [45]. Além disso, as mulheres geralmente possuem maior percentual de gordura corporal do que os homens no mesmo IMC, devido a diferenças hormonais e biológicas, o que limita a precisão do índice ao ser aplicado de forma uniforme [46].

Risco de estigmatização e equidade em saúde

O uso isolado do IMC pode contribuir para a estigmatização do peso, especialmente em populações racializadas e mulheres, ao associar diretamente o peso corporal a julgamentos morais sobre disciplina, saúde e valor social [6]. Essa estigmatização pode afetar negativamente a experiência em cuidados de saúde, levando a desconfiança, evasão de consultas e diagnósticos tardios. A American Medical Association (AMA) reconheceu que o IMC isolado é uma medida clínica imperfeita e alertou contra seu uso como único critério para diagnóstico ou triagem, especialmente em contextos onde desigualdades estruturais e racismo influenciam a saúde [37].

Discordância entre IMC e saúde metabólica

Estudos demonstram que uma parcela significativa de indivíduos com IMC normal apresenta perfis metabólicos desfavoráveis, como hipertensão, dislipidemia e resistência à insulina — uma condição conhecida como "obesidade metabolicamente anormal de peso normal" ou "obesidade de peso normal" [32]. Por outro lado, cerca de 30% das pessoas classificadas como obesas pelo IMC são metabolicamente saudáveis, com níveis normais de pressão arterial, glicemia e lipídios [50]. Esse descompasso entre o IMC e a saúde metabólica real reforça a necessidade de complementar o índice com biomarcadores diretos, como , perfil lipídico e pressão arterial, para uma avaliação mais precisa.

Recomendações para avaliação clínica individual

Diante dessas limitações, especialistas recomendam que o IMC seja utilizado apenas como uma ferramenta inicial de triagem, nunca como diagnóstico definitivo. Para uma avaliação mais completa da saúde individual, devem ser incorporadas medidas complementares como a , a e, quando disponível, análises de composição corporal por meio de técnicas como a DEXA, bioimpedância elétrica ou imagens por ressonância magnética [35]. Essas abordagens permitem uma avaliação mais precisa da gordura visceral e do risco metabólico, especialmente em populações com variações significativas na composição corporal. O movimento "Health at Every Size" e novas abordagens baseadas em fenótipos metabólicos também defendem uma avaliação mais holística e justa da saúde, que vá além das métricas antropométricas tradicionais [52].

Uso do IMC em vigilância epidemiológica e saúde pública

O índice de massa corporal (IMC) desempenha um papel central na vigilância epidemiológica e na formulação de políticas de , servindo como métrica padronizada para monitorar a prevalência de excesso de peso e obesidade em populações. Devido à sua simplicidade, baixo custo e facilidade de aplicação, o IMC é amplamente utilizado em grandes inquéritos populacionais, como a Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (NHANES) nos Estados Unidos e o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL) no Brasil [53]. Esses dados permitem acompanhar tendências temporais, identificar grupos de risco e orientar intervenções em saúde pública, como programas de promoção da , políticas de rotulagem nutricional e tributação sobre bebidas açucaradas [54].

A Organização Mundial da Saúde (OMS) incorpora o IMC em sua abordagem padronizada para vigilância de doenças não transmissíveis (DNT), conhecida como STEPS, que coleta dados sobre fatores de risco como hipertensão, tabagismo e obesidade [55]. A georreferenciação de dados de IMC a partir de prontuários eletrônicos (EHRs) também permite análises granulares da prevalência de obesidade em níveis regionais e comunitários, facilitando a alocação direcionada de recursos e o planejamento de intervenções localizadas [56]. Por exemplo, dados do CDC indicam que, entre agosto de 2021 e agosto de 2023, cerca de 40,3% dos adultos nos Estados Unidos tinham obesidade, com taxas mais elevadas entre adultos de meia-idade (40–59 anos) e populações não hispânicas de origem afro-americana [57]. Em 2022, o Atlas Mundial da Obesidade estimou que aproximadamente 1 bilhão de pessoas em todo o mundo viviam com obesidade, destacando a magnitude global do problema [58].

Vantagens do IMC como indicador de saúde populacional

O IMC é valorizado na saúde pública por várias razões práticas e estatísticas. Sua principal vantagem é a simplicidade e padronização, pois requer apenas medições de e , tornando-o facilmente reprodutível e comparável entre grandes populações [59]. Além disso, é uma medida economicamente viável, ao contrário de avaliações mais sofisticadas de composição corporal, como a DEXA ou a impedância bioelétrica, que exigem equipamentos caros e treinamento especializado [17]. Em nível populacional, o IMC apresenta forte correlação com a porcentagem de gordura corporal e é um preditor confiável de riscos associados à obesidade, como , e certos tipos de câncer [61]. Meta-análises envolvendo milhões de participantes confirmam que o IMC elevado está associado a maiores riscos de morbidade e mortalidade por todas as causas [28].

Limitações do IMC em populações diversas

Apesar de sua utilidade, o IMC apresenta limitações significativas que afetam sua precisão e equidade no contexto da saúde pública. Uma das principais críticas é a incapacidade de diferenciar entre massa gorda, massa magra e densidade óssea, o que pode levar a classificações incorretas. Por exemplo, indivíduos com alta massa muscular, como atletas, podem ser classificados como com sobrepeso ou obesos, apesar de terem baixa gordura corporal e excelente saúde metabólica [37]. Por outro lado, idosos podem ter IMC normal, mas alta gordura corporal — uma condição conhecida como "obesidade de peso normal" — o que aumenta o risco de doenças metabólicas [4].

Outra limitação crítica é a variabilidade étnica e racial nos riscos associados ao IMC. Os pontos de corte do IMC, derivados principalmente de populações brancas, podem não refletir com precisão os riscos em outros grupos étnicos. Pesquisas indicam que populações sul-asiáticas, de origem africana e asiáticas orientais tendem a ter maior porcentagem de gordura corporal e maior risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares em níveis mais baixos de IMC [23]. Por exemplo, estudos recomendam pontos de corte mais baixos (por exemplo, ≥23 kg/m² para sobrepeso e ≥27,5 kg/m² para obesidade) para populações sul-asiáticas a fim de capturar melhor o risco de diabetes [66]. O Instituto Nacional de Saúde dos EUA e o NICE (Reino Unido) já endossaram ajustes étnicos nos pontos de corte do IMC para uso clínico e em vigilância [67].

Variações por sexo, idade e status socioeconômico

O IMC também falha em considerar as diferenças entre sexo e idade. As mulheres geralmente têm maior porcentagem de gordura corporal do que os homens no mesmo IMC, e o envelhecimento está associado ao aumento da gordura corporal e à diminuição da massa magra, o que o IMC não capta [4]. Além disso, o status socioeconômico (SES) é um determinante-chave da prevalência de obesidade. Em países de alta renda, o SES mais baixo — medido por educação, renda ou privação do bairro — está consistentemente associado a maior prevalência de obesidade, especialmente entre mulheres [69]. Essa desigualdade social é impulsionada por fatores estruturais, como acesso desigual a alimentos saudáveis, espaços seguros para atividade física e serviços de saúde [70].

Abordagens emergentes e considerações éticas

O uso generalizado do IMC na vigilância e na prática clínica tem levantado preocupações éticas sobre a estigmatização do peso, que pode desencorajar indivíduos de procurar cuidados médicos e agravar as desigualdades em saúde [71]. A Associação Médica Americana (AMA) reconheceu que o IMC isolado é uma medida clínica imperfeita e não deve ser usado como único critério para diagnosticar obesidade ou determinar o estado de saúde [72]. Em resposta, estratégias de saúde pública estão evoluindo para abordagens mais abrangentes, que integram medidas complementares como a , a e análises diretas de composição corporal para melhor avaliar a adiposidade central e o risco metabólico [73].

Além disso, há um crescente movimento para desimplementar a triagem de IMC em contextos escolares e primários, onde pode causar danos psicológicos sem levar a intervenções eficazes [74]. Em vez disso, há uma ênfase crescente em promover comportamentos saudáveis — como atividade física, nutrição adequada e bem-estar mental — independentemente do tamanho corporal, alinhando-se com movimentos como "Health at Every Size" e abordagens baseadas em fenótipos metabólicos [52].

Variações do IMC em diferentes grupos demográficos

O índice de massa corporal (IMC) é amplamente utilizado como uma ferramenta de triagem para avaliar o estado nutricional e o risco de doenças relacionadas ao excesso de peso. No entanto, sua validade como indicador de adiposidade e risco metabólico varia significativamente entre diferentes grupos demográficos, incluindo faixas etárias, sexos, etnias e níveis de aptidão física. Essas variações desafiam a aplicação universal dos mesmos limiares de classificação e destacam a necessidade de abordagens mais sensíveis e contextualizadas na avaliação da saúde.

Diferenças por idade e grupo etário

As interpretações do IMC diferem substancialmente entre crianças, adolescentes e adultos. Em crianças e adolescentes (geralmente entre 2 e 19 anos), o IMC é analisado com base em percentis específicos para idade e sexo, utilizando gráficos de crescimento como os do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) [76]. Isso ocorre porque a composição corporal muda continuamente durante o crescimento e difere entre meninos e meninas. As categorias incluem: abaixo do peso (abaixo do 5º percentil), peso saudável (5º a menos que o 85º percentil), sobrepeso (85º a menos que o 95º percentil) e obesidade (95º percentil ou superior) [77]. Em contraste, nos adultos, o IMC é classificado em categorias fixas, independentemente da idade: abaixo do peso (<18,5), peso normal (18,5–24,9), sobrepeso (25,0–29,9) e obesidade (≥30,0) [78].

Na população idosa, o IMC enfrenta limitações adicionais. Com o envelhecimento, ocorre uma perda de massa muscular (sarcopenia) e um aumento da gordura corporal, mesmo sem mudanças no peso total. Isso pode resultar em uma condição conhecida como "obesidade de peso normal", em que indivíduos com IMC dentro da faixa normal possuem alta porcentagem de gordura e risco metabólico elevado [4]. Além disso, o chamado "paradoxo da obesidade" observado em idosos — onde o sobrepeso ou obesidade leve pode estar associado a uma mortalidade mais baixa — complica ainda mais a interpretação do IMC nessa faixa etária [29].

Variações por sexo e gênero

As diferenças biológicas entre os sexos influenciam a relação entre o IMC e a composição corporal. As mulheres tendem a ter uma porcentagem maior de gordura corporal do que os homens no mesmo IMC, devido a padrões hormonais e de distribuição de gordura, como a maior presença de gordura subcutânea nas regiões glúteofemoral [46]. Os homens, por outro lado, são mais propensos à acumulação de gordura visceral, que está mais fortemente ligada ao risco de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2 [82]. Essas diferenças significam que o mesmo valor de IMC pode representar riscos metabólicos distintos entre homens e mulheres. Alguns estudos sugerem que o intervalo ideal de IMC para o menor risco de mortalidade pode ser ligeiramente mais alto em mulheres do que em homens [30].

Disparidades étnicas e raciais na interpretação do IMC

Uma das críticas mais significativas ao uso universal do IMC é sua origem predominantemente baseada em dados de populações brancas de meia-idade, o que limita sua aplicabilidade a outros grupos étnicos. Populações de origem asiática, como sul-asiáticas e orientais, tendem a ter maior porcentagem de gordura corporal e riscos elevados de diabetes e doenças cardiovasculares em níveis de IMC considerados "normais" ou "sobrepeso" pela classificação convencional [23]. Em resposta, organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) do Reino Unido recomendam limiares mais baixos para essas populações, como sobrepeso a partir de 23 kg/m² e obesidade a partir de 27,5 kg/m² [3].

Por outro lado, algumas populações negras e hispânicas podem ter maior densidade óssea e massa magra, o que pode levar a uma superestimação do risco de obesidade quando se usa o IMC padrão [44]. Estudos indicam que os critérios étnico-específicos para o IMC podem prever melhor o risco de diabetes tipo 2 em grupos como sul-asiáticos, chineses e africanos [23]. Essas variações exigem que profissionais de saúde considerem ajustes nos limiares de corte para garantir uma avaliação de risco mais precisa e equitativa.

Impacto da composição corporal e nível de atividade física

O IMC não distingue entre massa gorda e massa magra, o que leva a erros de classificação em indivíduos com alta massa muscular, como atletas e praticantes de musculação. Esses indivíduos frequentemente são classificados como sobrepeso ou obesos, apesar de terem baixa gordura corporal e excelente saúde metabólica [31]. Em contraste, pessoas sedentárias com IMC normal podem ter alta gordura visceral e risco metabólico elevado, uma condição conhecida como "obesidade metabólica de peso normal" (MONW) [32]. A sarcopenia, a perda de massa muscular com a idade, também compromete a precisão do IMC em idosos, pois o peso pode permanecer estável enquanto a composição corporal se deteriora [90].

Viés na autoavaliação e desigualdades socioeconômicas

A vigilância populacional do IMC muitas vezes depende de dados autorrelatados de altura e peso, que estão sujeitos a vieses sistemáticos. Pessoas tendem a superestimar a altura e subestimar o peso, levando a uma subestimação do IMC. No entanto, esses vieses não são uniformes: indivíduos negros e hispânicos, por exemplo, podem reportar valores mais próximos dos medidos do que indivíduos brancos, enquanto mulheres e idosos são mais propensos a subestimar o peso [91]. Além disso, o status socioeconômico (SES) é um determinante-chave do IMC e seus desfechos de saúde. Em países de alta renda, o menor SES está consistentemente associado a maior prevalência de obesidade, especialmente entre mulheres, devido a fatores como acesso limitado a alimentos saudáveis, ambientes inseguros para atividade física e exposição a ambientes obesogênicos [69].

Recomendações para avaliação equitativa

Para abordar essas disparidades, profissionais de saúde devem adotar uma abordagem multifacetada. Isso inclui o uso de limiares específicos por etnia, o complemento do IMC com medidas antropométricas como a circunferência da cintura e a razão cintura-estatura, e a avaliação de marcadores metabólicos como glicemia em jejum, e perfil lipídico [93]. A comunicação com os pacientes deve ser sensível ao contexto, evitando a estigmatização do peso e focando em comportamentos saudáveis, como atividade física, nutrição equilibrada e bem-estar mental, independentemente do tamanho corporal [94]. A coleta de dados objetivos, quando possível, e o envolvimento comunitário no design de intervenções são essenciais para garantir que os programas de saúde sejam culturalmente relevantes e acessíveis [74].

Alternativas e medidas complementares ao IMC

Apesar de amplamente utilizado como ferramenta de triagem, o índice de massa corporal (IMC) apresenta limitações significativas ao avaliar a saúde individual, especialmente por não distinguir entre e nem considerar a distribuição da gordura corporal. Por isso, especialistas recomendam o uso de medidas complementares e alternativas para uma avaliação mais precisa dos riscos metabólicos e cardiovasculares. Essas abordagens permitem uma análise mais abrangente da composição corporal e da saúde metabólica, superando as deficiências do IMC [37].

Medidas antropométricas complementares

Uma das formas mais acessíveis de complementar o IMC é a medição da , que avalia diretamente a gordura abdominal, especialmente a , fortemente associada ao risco de , e . A circunferência da cintura é considerada um sinal vital em prática clínica por organizações como a International Atherosclerosis Society e a Organização Mundial da Saúde, com limiares de risco geralmente definidos como acima de 88 cm em mulheres e 102 cm em homens, embora valores mais baixos sejam recomendados para populações asiáticas [97].

Outra medida antropométrica com desempenho preditivo superior ao IMC é a (WHtR), calculada dividindo a circunferência da cintura pela altura. Um valor igual ou superior a 0,5 é amplamente proposto como indicador de risco aumentado para doenças metabólicas, independentemente do IMC. Estudos demonstram que a WHtR é um preditor mais confiável de e mortalidade cardiovascular do que o IMC, especialmente em populações diversas, incluindo asiáticos, hispânicos e afro-americanos [34]. Além disso, a (WC/HC) também mostra forte associação com risco cardiovascular, superando o IMC em análises de coorte individuais [99].

Índices corporais alternativos

Vários índices foram propostos para superar as limitações do IMC. O Body Roundness Index (BRI), por exemplo, utiliza um modelo geométrico baseado na circunferência da cintura e na altura para estimar a forma corporal e a gordura visceral. O BRI demonstra melhor capacidade de predizer riscos metabólicos em comparação com o IMC, especialmente em crianças e adolescentes, e está sendo considerado como uma alternativa promissora [100]. O BRI já está sendo adotado por instituições como a UCLA Health, que anunciou sua substituição progressiva pelo IMC [101].

Outro índice, o Body Adiposity Index (BAI), foi proposto para estimar a porcentagem de gordura corporal com base na circunferência do quadril e na altura, sem necessidade de pesagem. No entanto, estudos de validação mostraram correlação fraca com métodos de referência como a DEXA, limitando sua aplicabilidade clínica [102]. Já o Índice de Adiposidade Visceral (VAI), que combina circunferência da cintura, IMC, triglicerídeos e colesterol HDL, demonstra boa precisão no rastreamento da e da , integrando dados antropométricos e metabólicos [103].

Avaliação da composição corporal

Para uma avaliação mais precisa da adiposidade, métodos de análise da composição corporal são essenciais. A bioimpedância elétrica (BIA) é uma técnica acessível que estima a porcentagem de gordura corporal e a gordura visceral com base na condução elétrica do corpo. Embora sua precisão possa variar com o estado de hidratação, dispositivos modernos oferecem estimativas razoáveis em contextos clínicos e de pesquisa [104].

A DEXA é considerada o padrão-ouro para medição da composição corporal, fornecendo quantificações precisas de massa gorda, massa magra e densidade mineral óssea com alta reprodutibilidade. A DEXA é particularmente valiosa em pesquisas e clínicas especializadas, pois permite a análise regional da gordura, incluindo estimativas de gordura visceral quando usada com software avançado [105]. Estudos mostram que a DEXA frequentemente revela uma prevalência maior de obesidade do que o IMC, com essa discordância associada a maior risco cardiometabólico [106].

Técnicas de imagem como a tomografia computadorizada (TC) e a ressonância magnética (RM) são os métodos mais precisos para quantificar a gordura visceral, oferecendo imagens detalhadas do tecido adiposo. Embora seu uso seja limitado em triagem de rotina devido ao custo e, no caso da TC, à exposição à radiação, essas modalidades são fundamentais em pesquisas e em cenários clínicos de alto risco para avaliação do risco metabólico [107].

Biomarcadores e perfis metabólicos

Além das medidas físicas, a avaliação do estado metabólico é crucial para uma compreensão completa da saúde. Biomarcadores como a HbA1c, perfil lipídico (incluindo triglicerídeos e colesterol HDL), pressão arterial e marcadores inflamatórios (como a proteína C-reativa) fornecem informações diretas sobre o risco de doenças, independentemente do peso corporal [36]. O conceito de e de (MONW) demonstra que o IMC sozinho é insuficiente para determinar o estado de saúde [109].

O desenvolvimento de ferramentas como o BMI biológico (bBMI), um escore baseado em perfis metabólicos e proteômicos, representa um avanço significativo. O bBMI reflete a disfunção metabólica subjacente e pode identificar riscos ocultos não capturados pelo IMC tradicional, sendo mais sensível a intervenções de estilo de vida [5]. Outros escores, como o Metabolic Score for Insulin Resistance (METS-IR), também demonstram superioridade na predição de mortalidade cardiovascular em comparação com o IMC [111].

Recomendações clínicas e políticas públicas

As diretrizes clínicas estão evoluindo para incorporar uma abordagem multimodal. A American Medical Association (AMA) reconhece que o IMC isolado é uma medida imperfeita e recomenda seu uso combinado com outros indicadores, considerando também os determinantes sociais da saúde e o racismo estrutural [112]. Da mesma forma, a National Institute for Health and Care Excellence (NICE) do Reino Unido defende o uso combinado de IMC e razão cintura-estatura em adultos para melhorar a triagem da obesidade [113].

Em políticas públicas, há um movimento crescente para desimplementar a triagem de IMC em escolas e cuidados primários, onde pode causar danos psicológicos sem levar a intervenções eficazes. Em vez disso, prioriza-se a promoção de comportamentos saudáveis — como atividade física, nutrição equilibrada e bem-estar mental — independentemente do tamanho corporal, alinhando-se com abordagens como o movimento "Health at Every Size" [74]. Essa mudança reflete uma tendência global rumo a práticas de saúde mais justas, precisas e centradas na pessoa.

Críticas culturais, históricas e éticas ao uso do IMC

O índice de massa corporal (IMC) tem sido amplamente adotado como padrão global para classificar o peso corporal e avaliar riscos à saúde, mas sua universalização é profundamente enraizada em contextos históricos e culturais específicos que refletem desigualdades estruturais. A crítica a seu uso revela como o IMC não é apenas uma medida técnica, mas um instrumento socialmente construído que incorpora normas ocidentais de beleza, saúde e moralidade, frequentemente desconsiderando a diversidade étnica, cultural e corporal. Essa padronização tem implicações éticas significativas, especialmente na forma como contribui para a patologização de certos corpos e a perpetuação de estigmas raciais e de gênero.

Origens históricas e viés eurocêntrico do IMC

O IMC foi originalmente desenvolvido no século XIX pelo matemático belga Adolphe Quetelet como o "índice de Quetelet", uma ferramenta estatística destinada a definir o "homem médio" (l'homme moyen) dentro do campo da "física social", uma disciplina que buscava aplicar princípios matemáticos às ciências sociais [115]. Importante destacar que Quetelet não o concebeu como um indicador clínico de saúde, mas como um meio de quantificar a normalidade em populações. A adoção posterior do IMC na medicina moderna, especialmente após os estudos de Ancel Keys nas décadas de 1970 e 1980, foi baseada predominantemente em dados de populações brancas, de classe média e do sexo masculino, o que introduziu um viés intrínseco ao seu desenvolvimento [116]. Esse viés eurocêntrico tornou-se institucionalizado quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) formalizou as categorias de sobrepeso e obesidade em 1997, promovendo uma padronização global que ignorou as variações biológicas e culturais entre populações [117].

Patologização da gordura e racialização do peso

A popularização do IMC esteve intimamente ligada à medicalização da gordura e à associação entre magreza, saúde e moralidade, especialmente em sociedades ocidentais. Essa associação não é neutra: críticos argumentam que o uso do IMC "fetichiza a corporeidade branca", reforçando ideais de beleza e saúde historicamente ligados à superioridade racial [6]. A gordura passou a ser vista não apenas como um indicador de risco clínico, mas como um sinal de falta de autodisciplina, preguiça e falha moral, características que foram racializadas e desproporcionalmente atribuídas a populações não brancas, especialmente mulheres negras e indígenas [119]. Esse fenômeno, conhecido como "fobia à gordura racializada", tem raízes em ideologias eugenistas e coloniais que classificavam corpos não europeus como "anormais" ou "inferiores" [120].

Estigmatização e impactos desiguais na experiência de saúde

O uso do IMC como principal indicador de saúde tem contribuído significativamente para a estigmatização do peso, com consequências diretas para a experiência de cuidados em saúde. Pessoas com corpos maiores, especialmente aquelas de grupos racializados, frequentemente relatam experiências negativas em ambientes médicos, incluindo atitudes desdenhosas, diagnósticos negligenciados e tratamentos atrasados devido a preconceitos implícitos e explícitos dos profissionais de saúde [121]. O estigma em si é um determinante social da saúde: estudos demonstram que o dano social de ser rotulado como "obeso" pode piorar os resultados de saúde independentemente de fatores fisiológicos, levando ao adiamento de consultas preventivas e exames de rastreamento, como o de câncer cervical [122]. Essas desigualdades são agravadas por estruturas de racismo sistêmico, insegurança alimentar e falta de acesso a cuidados culturalmente competentes, fatores frequentemente ignorados em abordagens centradas apenas no peso [123].

Diversidade cultural e rejeição de normas corporais universais

Muitas culturas não ocidentais possuem normas corporais e conceitos de saúde que desafiam diretamente as categorias do IMC. Em diversas sociedades africanas, como entre os Yorùbá do Nigéria, o tamanho do corpo tem um "significado neutro" e não está inherentemente ligado a julgamentos morais ou de beleza; a saúde e o status social são mais associados a qualidades como caráter e fortuna [124]. Em Gana, por exemplo, um corpo mais cheio é socialmente encorajado e visto como um sinal de vitalidade, prosperidade e sucesso [125]. Da mesma forma, nas culturas polinésias, como a maori e a samoana, a saúde é entendida de forma holística, integrando dimensões físicas, emocionais, espirituais e comunitárias. O conceito havaiano de lokahi, por exemplo, enfatiza o equilíbrio entre esses aspectos, em vez de focar em métricas físicas isoladas [126]. A imposição global do IMC, portanto, representa uma forma de imperialismo cultural que deslegitima saberes locais e desvaloriza corpos que não se conformam ao ideal ocidental [127].

Movimentos em direção a práticas mais justas e inclusivas

Diante dessas críticas, há um crescente movimento para desmantelar a dependência do IMC como métrica universal. A Associação Médica Americana (AMA) reconheceu em 2023 que o IMC é uma "medida clínica imperfeita" quando usada isoladamente e recomendou que os profissionais considerem os determinantes sociais da saúde, o racismo estrutural e outros fatores clínicos ao avaliar pacientes [112]. Em resposta, iniciativas como o movimento "Health at Every Size" (Saúde em Qualquer Tamanho) e modelos baseados em fenótipos metabólicos buscam promover uma avaliação da saúde que vá além do peso corporal, focando em comportamentos saudáveis, bem-estar mental e indicadores biológicos diretos, como e perfil lipídico. Além disso, a adoção de limiares étnico-específicos para o IMC por órgãos como o NICE no Reino Unido e a ADA nos Estados Unidos representa um passo importante, embora ainda limitado, em direção a uma avaliação de saúde mais justa e precisa [3]. O futuro da avaliação da saúde corporal depende de abordagens culturalmente sensíveis que respeitem a diversidade humana e priorizem a dignidade e a equidade sobre a padronização [130].

Implicações clínicas e recomendações para profissionais de saúde

O índice de massa corporal (IMC) continua a ser uma ferramenta amplamente utilizada em ambientes clínicos e de saúde pública para triagem de riscos relacionados ao peso, como , e . No entanto, seu uso isolado apresenta limitações significativas que podem levar a erros de classificação, diagnósticos tardios e estigmatização, especialmente em populações diversas. Profissionais de saúde devem, portanto, adotar uma abordagem mais abrangente e contextualizada, integrando o IMC a outras medidas e considerando fatores demográficos, sociais e biológicos.

Limitações do IMC na avaliação individual

Uma das principais críticas ao uso clínico do IMC é sua incapacidade de distinguir entre massa gorda e massa magra. Indivíduos com alta , como atletas ou pessoas fisicamente ativas, frequentemente são classificados como sobrepeso ou obesos, apesar de possuírem baixa gordura corporal e boa [4]. Por outro lado, pessoas com IMC normal podem apresentar altos níveis de gordura visceral — conhecida como "obesidade de peso normal" — o que aumenta o risco de e outras comorbidades [132]. Esse fenômeno, chamado de "obesidade metabolicamente normal com peso normal", revela que o IMC pode subestimar riscos em indivíduos aparentemente saudáveis.

Além disso, o IMC não fornece informações sobre a distribuição da gordura corporal. A gordura visceral, localizada ao redor dos órgãos abdominais, está fortemente associada à resistência à insulina, inflamação sistêmica e risco cardiovascular, enquanto a gordura subcutânea é menos prejudicial [133]. Estudos demonstram que a e a são preditores mais precisos de risco cardiometabólico do que o IMC isolado [41].

Variações demográficas e étnicas na interpretação do IMC

Os limiares convencionais de IMC foram desenvolvidos com base em dados de populações predominantemente brancas e de meia-idade, o que limita sua aplicabilidade a outros grupos. Populações asiáticas, por exemplo, tendem a apresentar maior percentual de gordura corporal e maior risco de diabetes tipo 2 em valores de IMC considerados "normais" pela classificação padrão [23]. Em resposta, a Organização Mundial da Saúde e instituições como a NICE recomendam limiares mais baixos (por exemplo, ≥23 kg/m² para sobrepeso e ≥27,5 kg/m² para obesidade) para populações sul-asiáticas [3].

Da mesma forma, populações negras e hispânicas podem apresentar padrões distintos de composição corporal, com maior densidade óssea e massa magra, o que pode levar a uma superestimação do risco quando se usa o IMC de forma isolada [44]. Em contrapartida, algumas populações polinésias, como samoanas e maoris, têm corpos naturalmente mais robustos e maior massa muscular, o que também pode resultar em classificação inadequada como obesos [138]. Essas variações destacam a necessidade de adaptações étnicas nos critérios de triagem.

Recomendações clínicas para avaliação integrada

Diante dessas limitações, organizações como a American Medical Association (AMA) e a Endocrine Society recomendam que o IMC não seja usado como único critério diagnóstico para obesidade ou risco metabólico [37]. Em vez disso, profissionais de saúde devem adotar uma abordagem multimodal que inclua:

  • Circunferência da cintura: medida simples e de baixo custo que reflete diretamente a gordura abdominal. Limiares recomendados são >94 cm em homens e >80 cm em mulheres, com valores ainda mais baixos para populações asiáticas [33].
  • Razão cintura-estatura (RCE): uma razão ≥0,5 é amplamente considerada um indicador de risco aumentado, com melhor desempenho preditivo do que o IMC em adultos mais velhos e em populações diversas [141].
  • Análise de composição corporal: métodos como a DEXA, a bioimpedância elétrica (BIA) e a ressonância magnética oferecem medições precisas de massa gorda, massa magra e gordura visceral, sendo especialmente úteis em casos de obesidade sarcopênica ou em atletas [35].
  • Marcadores metabólicos: exames laboratoriais como , perfil lipídico, triglicerídeos e proteína C-reativa (PCR) permitem uma avaliação funcional da saúde metabólica, independentemente do peso corporal [36].

Abordagem centrada no paciente e comunicação não estigmatizante

A comunicação com o paciente sobre peso e saúde deve ser feita com sensibilidade cultural e evitando linguagem estigmatizante. Termos como "obesidade mórbida" ou "excesso de peso" podem gerar vergonha e desencorajar a busca por cuidados. Em vez disso, recomenda-se o uso de linguagem neutra e centrada na saúde, como "peso" ou "saúde metabólica", e focar em comportamentos promotores de saúde — como alimentação equilibrada, atividade física e qualidade do sono — em vez de apenas perda de peso [144].

Profissionais devem também reconhecer os determinantes sociais da saúde, como insegurança alimentar, acesso desigual a espaços seguros para exercícios e traumas históricos, que influenciam o peso corporal. Abordagens como o "Health at Every Size" (Saúde em Qualquer Tamanho) promovem o bem-estar físico e mental independentemente do tamanho corporal, priorizando a dignidade e a equidade no atendimento [52].

Integração de novas métricas e modelos preditivos

A evolução da medicina baseada em evidências está impulsionando o desenvolvimento de novas métricas que superam as limitações do IMC. O Body Roundness Index (BRI), por exemplo, usa a circunferência da cintura e a altura para estimar a forma corporal e a gordura visceral, oferecendo melhor predição de risco metabólico [100]. Além disso, o conceito de "IMC biológico" (bBMI), baseado em perfis metabolômicos sanguíneos, permite identificar disfunções metabólicas ocultas não capturadas pelo IMC tradicional [5].

Modelos estatísticos avançados, como regressão por processo gaussiano e modelos dinâmicos, estão sendo utilizados para prever a prevalência futura de obesidade e seus impactos em saúde pública. O estudo Global Burden of Disease (GBD) 2021 projeta que, até 2050, mais da metade da população adulta dos EUA terá obesidade, com formas graves afetando mais de 25% dos adultos em muitos estados [148]. Essas previsões reforçam a urgência de intervenções multissetoriais que vão além da triagem individual.

Em conclusão, embora o IMC permaneça uma ferramenta útil para triagem em larga escala, sua aplicação clínica deve ser acompanhada de medidas complementares, sensibilidade cultural e uma compreensão crítica de suas limitações. A medicina do futuro exige uma abordagem personalizada, equitativa e integrada, que valorize a saúde funcional e metabólica mais do que o número na balança.

Referências